Preciso lhe falar da espiral
Por Hiran de Melo
Há
um equívoco silencioso que acompanha muitos homens quando atravessam pela
primeira vez as portas do Templo.
Eles
imaginam que a iniciação seja um ponto de chegada.
Como
se, depois de determinados rituais, determinadas palavras e determinados
juramentos, uma nova identidade lhes fosse concedida de forma definitiva.
Mas
a iniciação nunca foi uma chegada.
Ela
sempre foi uma partida.
Na
verdade, talvez seja mais correto dizer que cada iniciação é apenas o início de
uma nova pergunta.
O
homem entra na Ordem acreditando que busca conhecimentos.
Com
o tempo, descobre que o verdadeiro objeto da busca sempre foi ele mesmo.
É
curioso perceber como a vida insiste em nos ensinar utilizando os mesmos temas.
Mudam
os cenários.
Mudam
as pessoas.
Mudam
os desafios.
Mas,
de alguma maneira, voltamos repetidamente aos mesmos conflitos.
Ao
mesmo medo.
À
mesma esperança.
À
mesma necessidade de pertencimento.
À
mesma dificuldade de amar.
À
mesma luta entre aquilo que somos e aquilo que desejamos ser.
À
primeira vista, parece que estamos girando em círculos.
Mas
não estamos.
A
imagem da espiral revela algo muito mais profundo.
Quem
percorre uma espiral retorna ao mesmo ponto apenas na aparência.
Na
realidade, retorna de outro lugar.
Com
outra consciência.
Com
outras cicatrizes.
Com
uma visão que antes não possuía.
Talvez
seja exatamente esse o segredo escondido em cada grau da Maçonaria.
Não
existe uma linha reta entre o Aprendiz, o Companheiro e o Mestre.
Existe
uma espiral.
O
Aprendiz aprende a observar.
O
Companheiro aprende a compreender.
O
Mestre aprende que continuará aprendendo enquanto existir.
E
quando imaginamos que a jornada terminou, descobrimos que apenas alcançamos uma
nova volta da espiral.
Os
chamados altos graus não rompem esse movimento.
Apenas
ampliam o horizonte.
Quanto
mais elevados parecem os símbolos, mais profundamente nos conduzem para dentro.
Porque
toda ascensão verdadeira acontece em direção ao interior.
A
espiral nunca aponta para longe.
Ela
aponta para o centro.
E
esse centro é a consciência.
Existe
uma razão para isso.
O
ser humano não evolui eliminando suas sombras.
Evolui
aprendendo a dialogar com elas.
Cada
emoção torna-se, então, um instrumento de trabalho.
O
medo deixa de ser um inimigo.
Passa
a ser o guardião dos limites que ainda precisamos compreender.
A
curiosidade transforma-se na força silenciosa que nos impulsiona para além da
acomodação.
A
serenidade deixa de significar ausência de conflitos.
Passa
a ser a capacidade de permanecer inteiro mesmo quando tudo parece instável.
As
emoções possuem uma linguagem própria.
São
como instrumentos delicados de navegação.
Ignorá-las
é como destruir a bússola antes de iniciar a travessia.
Por
isso, o iniciado aprende que sentir não é fraqueza.
É
percepção.
Entretanto,
toda percepção exige interpretação.
A
primeira tarefa consiste em nomear aquilo que habita o coração.
Enquanto
não damos nome ao medo, ele governa nossas escolhas.
Enquanto
não reconhecemos a ansiedade, ela veste o disfarce da prudência.
Enquanto
não admitimos a tristeza, ela se apresenta como desinteresse pela vida.
Dar
nome às emoções é o primeiro golpe de malho sobre a pedra interior.
Depois,
torna-se necessário perguntar:
Que
situação despertou esse sentimento?
Quase
sempre o mundo exterior apenas ilumina aquilo que já existia dentro de nós.
Os
acontecimentos não criam todas as emoções.
Muitas
vezes apenas revelam antigas construções que permaneceram escondidas.
Por
fim, surge a pergunta mais difícil.
O
que essa emoção deseja ensinar?
Porque
toda emoção, mesmo a mais desconfortável, carrega uma intenção.
Toda
dor aponta para um valor ameaçado.
Toda
indignação revela um limite.
Todo
medo protege algo considerado precioso.
Quando
compreendemos isso, deixamos de lutar contra nós mesmos.
Começamos
a caminhar conosco.
Talvez
seja exatamente essa a verdadeira obra do maçom.
Não
construir apenas templos de pedra.
Mas
tornar-se um templo onde inteligência e sensibilidade possam finalmente habitar
em paz.
Os
antigos instrumentos da Arte Real nunca foram apenas ferramentas de construção.
Sempre
foram metáforas da alma.
O
esquadro recorda a retidão.
O
compasso ensina o equilíbrio.
O
malho rompe aquilo que endureceu.
O
cinzel revela aquilo que já existia oculto na pedra.
Nenhum
deles trabalha sozinho.
Assim
também acontece conosco.
Razão
sem emoção transforma-se em rigidez.
Emoção
sem razão dissolve-se em impulso.
A
sabedoria nasce quando ambas aprendem a caminhar juntas.
É
por isso que cada novo grau não acrescenta apenas conhecimentos.
Acrescenta
responsabilidade.
Quanto
maior a luz recebida, maior também a necessidade de iluminar a própria conduta.
A
verdadeira iniciação nunca acontece apenas durante um ritual.
Ela
acontece quando um homem passa a reagir de forma diferente diante das mesmas
circunstâncias.
Quando
a ofensa deixa de produzir vingança.
Quando
o orgulho cede espaço à humildade.
Quando
a impaciência aprende a esperar.
Quando
o julgamento se transforma em compreensão.
É
nesse instante que a espiral completa mais uma volta.
Não
porque a vida tenha mudado.
Mas
porque o viajante mudou.
Talvez
seja por isso que nenhum grau represente um fim.
Toda
conquista espiritual inaugura uma responsabilidade ainda maior.
Toda
resposta madura gera perguntas mais profundas.
Toda
luz alcançada revela horizontes antes invisíveis.
A
espiral continua.
Sempre
continuará.
Porque
o aperfeiçoamento humano não conhece ponto final.
Conhece
apenas novos níveis de consciência.
Ao
final, compreendemos que a maior viagem da Maçonaria nunca foi entre colunas,
câmaras ou graus.
Sempre
foi entre aquilo que acreditávamos ser e aquilo que fomos chamados a nos
tornar.
E
talvez seja exatamente essa a beleza da iniciação.
Ela
nunca promete homens perfeitos.
Ela
convida homens dispostos a recomeçar.
Sempre.
Em
cada volta da espiral.
Em
cada pedra trabalhada.
Em
cada silêncio.
Em
cada encontro consigo mesmo.
Hiran de
Melo – Cavaleiro Noaquita do Rito Adonhiramita
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