Entre as Trevas e a Luz
Por Hiran de Melo
Certas
frases atravessam os séculos porque falam menos da história e mais da condição
humana.
"Venho
das trevas para receber a luz."
Quem
a escuta pela primeira vez talvez imagine uma oposição entre o bem e o mal,
entre o sagrado e o profano, entre Deus e alguma força obscura. Mas a tradição
iniciática convida a uma compreensão muito mais profunda.
As
trevas, aqui, não são os pecados.
São
ignorância.
E
essa diferença muda tudo.
Porque
ninguém nasce iluminado.
Todos
chegamos ao mundo cercados por uma espécie de noite interior. Não sabemos quem
somos, por que existimos, para onde caminhamos. Aprendemos nomes antes de
aprender significados. Decoramos respostas antes mesmo de formular boas
perguntas.
Vivemos.
Mas
nem sempre compreendemos.
Talvez
as verdadeiras trevas não sejam a ausência de Deus, mas a ausência de
consciência.
Imagine um homem adulto que jamais aprendeu a
ler.
Alguém
coloca diante dele um grande livro.
As
páginas estão repletas de letras, palavras e ideias. O conhecimento está ali. A
beleza está ali. A verdade talvez também esteja.
Mas,
para aquele homem, tudo parece um conjunto de sinais incompreensíveis.
O
problema não está no livro.
Nem
nos olhos.
Está
na linguagem que ainda não foi aprendida.
Ele
olha.
Mas
não vê.
É
exatamente essa a condição do candidato que declara vir das trevas para receber
a luz.
Ele
não afirma ser moralmente inferior.
Não
confessa uma vida de maldade.
Faz
apenas um gesto de rara humildade: reconhece que existem conhecimentos que
ainda não possui.
E
esse talvez seja o primeiro requisito de toda verdadeira sabedoria.
Reconhecer
a própria ignorância.
Existe um paradoxo curioso.
Quanto
menos alguém sabe, maior costuma ser sua certeza.
Quanto
mais alguém aprende, maior se torna sua capacidade de perceber a vastidão do
desconhecido.
Os
antigos filósofos já desconfiavam disso.
A
iniciação apenas transforma essa intuição em experiência simbólica.
Entrar
na Luz não significa tornar-se dono da verdade.
Significa
tornar-se aprendiz dela.
Vivemos numa época curiosa.
Nunca
houve tanta informação.
E
talvez nunca tenha existido tanta confusão.
Confundimos
acesso ao conhecimento com sabedoria.
Confundimos
opinião com entendimento.
Confundimos
velocidade com profundidade.
Uma
pessoa pode carregar no bolso toda a informação do mundo e, ainda assim,
permanecer nas trevas.
Porque
a luz não depende da quantidade de dados acumulados.
Depende
da transformação que o conhecimento produz.
Ler
não basta.
É
preciso compreender.
Compreender
não basta.
É
preciso viver.
A iniciação, nesse sentido, não entrega
respostas prontas.
Ela
alfabetiza o espírito.
Assim
como uma criança aprende primeiro as letras, depois as palavras, depois os
textos e, finalmente, descobre que um livro pode mudar uma vida, o iniciado
aprende lentamente uma nova forma de enxergar a realidade.
Os
símbolos tornam-se um novo alfabeto.
As
alegorias tornam-se frases.
Os
rituais tornam-se uma gramática da alma.
Aquilo
que antes parecia apenas cerimônia revela-se linguagem.
E,
pouco a pouco, o universo inteiro começa a ser lido como um grande livro.
Talvez seja por isso que a Luz nunca seja
apresentada como uma conquista definitiva.
Ela
é um caminho.
Cada
resposta ilumina uma pergunta ainda maior.
Cada
descoberta abre uma nova porta.
Cada
horizonte alcançado revela outro horizonte além.
A
Luz verdadeira não elimina o mistério.
Ela
apenas nos ensina a caminhar dentro dele.
Há também outra ilusão que merece ser desfeita.
Muitos
imaginam que as trevas estão sempre fora de nós.
No
outro.
Na
sociedade.
Na
política.
Na
cultura.
Mas
as trevas mais difíceis de vencer são interiores.
São
os preconceitos que carregamos sem perceber.
As
certezas que nunca examinamos.
Os
medos que dirigem nossas escolhas.
O
orgulho que impede o aprendizado.
A
vaidade que acredita já ter chegado.
Essas
são sombras que nenhuma lâmpada consegue dissipar.
Somente
a consciência.
Talvez por isso a Luz iniciática seja recebida, e
não conquistada.
Receber
exige abertura.
Exige
silêncio.
Exige
disposição para abandonar antigas certezas.
Ninguém
enche um cálice que já acredita estar cheio.
A
humildade é a primeira claridade.
No fim, a antiga declaração continua ecoando porque
descreve algo que pertence a todos os homens, iniciados ou não.
Todos
nós, em algum momento da vida, estamos diante de um livro que ainda não sabemos
ler.
Pode
ser um sofrimento.
Pode
ser uma perda.
Pode
ser um amor.
Pode
ser a própria existência.
E
então compreendemos que viver talvez seja exatamente isso: uma longa
alfabetização da consciência.
As
trevas não são um lugar de condenação.
São
o ponto de partida.
E
a Luz não é o privilégio de quem sabe tudo.
É
a recompensa silenciosa daqueles que tiveram a coragem de admitir que ainda
tinham muito a aprender.
Assista e entenda a razão deste artigo:
https://youtu.be/9YGrzvp5vj8?si=08w9_hdWGlcf_8cU
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