O que faz um obreiro ser reconhecido como um Mestre Maçom Adonhiramita

Por Hiran de Melo

Há uma diferença silenciosa entre receber um grau e tornar-se digno dele.

O ritual pode conferir um título.
A Oficina pode registrar uma elevação.
Os Irmãos podem aplaudir uma cerimônia.

Mas nenhuma dessas coisas transforma, por si só, um homem em Mestre.

O reconhecimento verdadeiro acontece de maneira quase imperceptível.

Nasce quando o obreiro deixa de perguntar o que a Maçonaria pode-lhe oferecer e começa a perguntar o que ele próprio pode oferecer à construção do Templo.

É nesse instante que o rito deixa de ser uma sucessão de cerimônias e passa a ser um modo de existir.

O Rito Adonhiramita parece insistir, desde seus primeiros símbolos, numa verdade que poucos percebem.

Não basta aprender os sinais.

É necessário tornar-se um deles.

Não basta decorar palavras.

É preciso permitir que elas reorganizem o silêncio interior.

Não basta compreender alegorias.

É preciso viver aquilo que elas revelam.

O verdadeiro Mestre Adonhiramita não é identificado pela quantidade de instruções que recebeu, mas pela profundidade das transformações que permitiu acontecer dentro de si.

Existe uma serenidade que começa a surgir naquele que compreendeu a natureza da Obra.

Ele já não precisa provar que sabe.

Também não sente necessidade de disputar reconhecimento.

Porque descobriu que a sabedoria não cresce sob os aplausos.

Ela amadurece no recolhimento.

Como uma pedra cuidadosamente lapidada, cuja beleza permanece escondida enquanto o trabalho continua.

Os antigos construtores conheciam bem esse princípio.

As maiores estruturas do Templo permaneciam invisíveis aos olhos do povo.

Os alicerces nunca recebiam homenagens.

Entretanto, sustentavam toda a construção.

Assim também acontece com o Mestre.

Quanto menos necessidade possui de ser visto, maior costuma ser sua capacidade de sustentar a harmonia da Oficina.

Sua autoridade deixa de nascer do cargo.

Passa a nascer da coerência.

Ele compreende que a Palavra Perdida talvez nunca tenha sido um som.

Talvez seja um estado de consciência.

Um modo de olhar o mundo sem as deformações do orgulho.

Um modo de servir sem esperar recompensa.

Um modo de construir sem desejar autoria.

A verdadeira iniciação modifica a forma como o homem ocupa o próprio espaço na existência.

Por isso o Mestre Adonhiramita aprende, pouco a pouco, a substituir o julgamento pela compreensão.

A impaciência pela escuta.

A vaidade pela discrição.

A ansiedade pelo tempo correto das coisas.

Ele entende que nenhuma árvore amadurece antes da estação.

Nenhuma coluna permanece firme se seus fundamentos forem frágeis.

Nenhuma consciência desperta pela força.

Tudo possui um ritmo.

Tudo possui um tempo.

É por isso que o Mestre deixa de trabalhar apenas sobre a pedra.

Passa a trabalhar sobre si mesmo.

Cada conflito torna-se oportunidade de lapidação.

Cada erro transforma-se em instrumento de humildade.

Cada perda revela um aspecto do Templo Invisível que ainda permanecia oculto.

Sua espiritualidade deixa de depender das palavras pronunciadas durante os trabalhos.

Ela acompanha seus gestos quando ninguém observa.

Manifesta-se na forma como trata os mais simples.

Na honestidade com que administra seus deveres.

Na fidelidade silenciosa aos compromissos assumidos.

Porque a verdadeira iniciação não termina quando a Loja é fechada.

É exatamente ali que ela começa.

O Mestre Adonhiramita também compreende que a perfeição não constitui um ponto de chegada.

É uma direção.

Os antigos chamavam-no de Mestre Perfeito não porque tivesse eliminado suas imperfeições, mas porque havia aprendido a permanecer vigilante diante delas.

Sua perfeição consiste em jamais abandonar o trabalho.

Ele sabe que toda construção humana permanecerá inacabada.

E já não teme essa realidade.

Ao contrário.

Aprende a amar a incompletude.

Porque é justamente ela que mantém vivo o desejo de crescer.

Talvez seja esse o maior ensinamento da tradição adonhiramita.

O homem não se torna Mestre quando domina os símbolos.

Torna-se Mestre quando os símbolos passam a dominá-lo.

Quando a régua orienta sua justiça.

Quando o esquadro disciplina suas escolhas.

Quando o compasso limita seus excessos.

Quando a acácia deixa de ser apenas um ornamento ritual e passa a representar a esperança que floresce mesmo depois da perda.

No fim, o reconhecimento de um Mestre nunca acontece por decreto.

Acontece naturalmente.

Os Irmãos sentem sua presença antes mesmo de ouvirem suas palavras.

Confiam em seu julgamento porque percebem sua integridade.

Respeitam seu silêncio porque sabem que ele foi conquistado depois de muitas batalhas interiores.

Talvez seja essa a marca mais discreta — e também a mais elevada — de um verdadeiro Mestre Maçom Adonhiramita.

Ele já não procura construir apenas templos de pedra.

Transformou-se, ele próprio, em um templo onde a Sabedoria encontra abrigo, a Força permanece serena e a Beleza deixa de ser aparência para tornar-se expressão da verdade interior.

E quando isso acontece, já não importa o grau inscrito em seu avental.

Porque sua própria vida passa a testemunhar, silenciosamente, aquilo que nenhum ritual consegue conferir por si só: a maturidade espiritual do obreiro que compreendeu que a Obra mais importante jamais esteve diante de suas mãos, mas dentro de sua própria consciência.

 


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