A Quinta Instrução do Grau de Aprendiz Maçom Adonhiramita
Por
Hiran de Melo
Chegar à Quinta e última Instrução do Grau de
Aprendiz é como cruzar o limiar de um templo interior. Ao recordar o primeiro
passo dado no átrio da Loja, conduzido pelos Irmãos, percebo que não sou mais o
mesmo. A Escada simbólica com seus três primeiros degraus — que me elevaram do
plano material ao espiritual — e o Painel da Loja — mapa iniciático que me
revelou a linguagem dos emblemas — foram apenas o prólogo de um drama sagrado.
Agora, adentro um território mais silencioso, onde o cálculo é oração e a geometria,
um ato de fé.
A ciência que se abre diante de mim não é a da
aritmética comum, mas a da aritmética sagrada — a linguagem oculta dos quatro
primeiros números, cuja função transcende o contar. Para os antigos
construtores, número e medida eram reflexos diretos da lei divina. Suas
pirâmides, templos e catedrais obedeciam a proporções tão exatas que nelas se
podia ler, como num livro de pedra, desde o curso dos astros até a distância
entre a Terra e o Sol.
Esses mestres sabiam que matéria e espírito são
inseparáveis, e que cada forma carrega o número que a sustenta. Alguns, mais
que outros, parecem ser os alicerces da própria arquitetura do universo — leis
puras que regem o espaço e o tempo, e por isso foram chamados “sagrados”.
O 1 — A Unidade
O número um é o princípio de todos os demais,
símbolo do Ser absoluto. Invisível aos olhos, habita a consciência desperta que
reconhece: “sou parte do Todo e o Todo pulsa em mim”. No templo, não é
representado, pois o mundo visível é domínio da multiplicidade. É a centelha
silenciosa que une o iniciado ao Grande Arquiteto, origem de toda forma e
medida.
O 2 — A Dualidade
Com o dois surge a tensão: luz e trevas, bem e mal,
verdade e falsidade. É o número dos contrários, o “inimigo” que não se destrói,
mas se equilibra. Na aritmética, sua soma ou multiplicação pode gerar o quatro;
no caminho espiritual, pode gerar a dúvida. Por isso, ao Aprendiz é dado apenas
vislumbrar seu mistério — para que não se perca no labirinto estéril da
contradição. A dúvida é necessária, mas não deve aprisionar; ela é o vento que
move o navio, mas não o porto de chegada.
O 3 — O Ternário
Ao binário instável, o três acrescenta
reconciliação. É número da vida e do ser, símbolo da perfeição dinâmica. Seu
emblema é o triângulo, primeira figura geométrica perfeita, indivisível, base
de todas as outras. No centro do Delta Sagrado brilha a letra Iod — primeira do
tetragrama IEVE — como lembrança da potência criadora.
O três manifesta-se em todas as tradições: na
Trimurti hindu (Brahma, Vishnu, Shiva), na Trindade cristã (Pai, Filho e
Espírito Santo), nos Três Pilares maçônicos (Sabedoria, Força e Beleza). É
também a harmonia das três virtudes inseparáveis: Vontade, Amor (Sabedoria) e
Inteligência. Isoladas, tornam-se perigosas ou inúteis; unidas, sustentam o
verdadeiro Maçom.
Na vida, o ternário está no tempo (passado,
presente, futuro), no curso do sol (nascer, zênite, ocaso), e no próprio ciclo
humano (nascimento, existência, morte). Ele ensina que a Luz não surge da
negação de um polo, mas da sua integração.
O 4 — O Quaternário
Ainda velado ao Aprendiz, o quatro representa a
solidez da matéria e o início das provas concretas. É o número das quatro
direções, das quatro estações, dos quatro elementos — Terra, Água, Ar e Fogo —
que todo Maçom deverá enfrentar. No tetragrama, embora composto por quatro
letras, oculta-se uma essência ternária: altura, largura e profundidade —
dimensões que só ganham plenitude no equilíbrio interior.
Conclusão
Ao concluir esta Quinta Instrução, percebo que cada
número é um degrau da alma:
- O Um une;
- O Dois prova;
- O Três reconcilia;
- O Quatro funda.
O caminho não consiste apenas em compreender o
símbolo, mas em encarná-lo: pensar, falar e agir segundo o juramento prestado
no Templo do Ideal. É viver de modo que cada obra seja pedra colocada na
construção invisível do Grande Arquiteto.
A iniciação não se cumpre em teorias suspensas no
ar, mas em verdades plantadas no coração, cultivadas no silêncio e colhidas na
ação. Ao atravessar para o próximo Grau, que a Luz queime dentro de mim —
iluminando, harmonizando e edificando, dia após dia.
Referência:
Guillemain de Saint-Victor, Louis.
Compilação Preciosa da Maçonaria Adonhiramita. Tradução Loja Gilvan Barbosa.
Campina Grande, 1989 [1781].
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